Uma nota sobre o preconceito e o medo de mudar.

20 de março de 2015

(via)

Hoje li no Facebook uma enxurrada de comentários repulsivos a respeito da cena transmitida essa semana pela Rede Globo em sua nova novela, Babilônia, protagonizada pelas irretocáveis Nathália Timberg e Fernanda Montenegro, que derrubaram barreiras ao se beijarem em um canal de televisão aberta. Os comentários que li são hostis e pouco esclarecidos, vindos de filhos e pais que nada sabem da vida e das suas inúmeras possibilidades, que restringem suas mentes com o mal do século, deste e de todos os outros: O preconceito.
Preconceito, em pura análise sintática da palavra, é uma ideia que se concebe sobre algo do que qual não se conhece. É terrível padecer desse mal. 
Etnocentrismo é um conceito da antropologia que se dá quando uma pessoa, ou um grupo de pessoas, que tem os mesmos hábitos, condição social, etnia e afins se julga superior aos demais. Do ponto de vista antropológico, etnocentrismo é a dificuldade de pensar no diferente, no novo e ver o mundo através dos olhos dos outros. Esse conceito foi designado para melhor qualificar o fato das outras culturas, muito distintas da nossa, nos parecerem tão estranhas e diferentes. Acredito que etnocêntrica é a nossa sociedade.



As pessoas estão constantemente agredindo e sendo agredidas, julgando e sendo julgadas. Por quê? Por quem?
Li comentários de pessoas que afirmavam ser nojenta, a cena. Ora, mas você não beija na boca de alguém? Não faz amor ou sexo com alguém? Porque quando as pessoas são do mesmo sexo um simples beijo parece tão ofensivo?
Há muito tempo atrás, quando vi pela primeira vez o preconceito contra os gays em um comentário de um tio meu, não entendi porque pensava tão diferente dele, não entendi porque ele não sentia como eu. Pensei que talvez fosse por sua idade avançada, que o lembrava de outra época onde as coisas aconteciam de maneira mais contida, resguardada. Depois, finalmente, entendi. 
O fato não era a sua idade, é a cabeça mesmo, é o interesse em evoluir junto com a sociedade, em desapegar de sentimentos pesados. Fui criada somente por um pai, quando minha mãe faleceu eu ainda era muito menina, as pessoas me diziam que ia ser duro ser criada por um homem e que eu não ia ter contato com o "universo feminino", (outro preconceito), que eu ia crescer muito "moleque". Bom, o fato é que fui educada por um homem que me ensinou, dentre outros valores primordiais na minha vida, a pensar por minha própria cabeça, a expandir o que conheço e a nunca estar satisfeita com o que não basta. Meu pai tem seus preconceitos inerentes a alguém de 52 anos, mas ele SEMPRE quer me ouvir, saber o que penso sobre as coisas e pergunta o que acho sobre os assuntos atuais e antigos também, quer sempre se atualizar, pensar melhor, diferente. Ele tem conseguido.

Meu ponto é que o diálogo é algo precioso na formação de qualquer criança e mudar de canal para que o seu filho não veja a cena só vai aguçar o interesse dele em saber mais sobre o assunto e vai buscar esse conhecimento de outra forma, por outras pessoas e seus pais, que mudaram abruptamente de canal para evitar uma conversa "delicada", vão perder uma oportunidade de ouro de conversar com seus filhos, de educá-los sobre o que foi visto, saber o que seu filho acha sobre o assunto, tentar compreendê-lo, porque ele está em busca de também se compreender como um ser pensante, um formador de opiniões.
Me formei em Direito muito por tudo que penso, acredito e vejo. Entrei na faculdade querendo mudar o mundo, agora sou mais realista, me contento em me mudar e assim despertar em alguém do lado o mesmo interesse, questionar as pessoas e tudo ao meu redor e amo ser questionada, amo colocar o penso à prova e aprender novas coisas. Acredito num direito igualitário, mesmo que isso esteja longe. O direito homoafetivo é meu nicho de pesquisa, e ver uma cena dessas ser tão combatida por preconceituosos me incomoda profundamente, pelo simples fato de que a lei, assim como a religião, PRECISA evoluir de acordo com a sociedade a qual se aplica, e cenas como essa de ontem servem para instigar o debate sobre o silêncio da lei quanto ao direito homoafetivo. 
Essa cena serve para provocar o poder legislativo à garantir mais direitos aos gays, assegurar à eles e elas tudo que cabe também aos heterossexuais. 

A sociedade somente será igualitária quando as pessoas aprenderem a se respeitar dentro de suas diferenças. A cena polêmica parece ter incomodado ainda mais por se tratarem de duas mulheres idosas, como se um pessoa gay não envelhecesse tal qual envelhecem os héteros. Como se sua orientação sexual mudasse de acordo com a idade. Non sense.

A babá que trabalha em minha casa achou a cena absurda, totalmente ofensiva e o que mais chamou minha atenção foi quando ela disse que era um "mau exemplo" para seus filhos. Respondi que na novela anterior houveram incontáveis traições, o ídolo/herói da novela era um contrabandista de pedras preciosas e sonegador de impostos com um motorista armado que não hesitava em "proteger o patrão" e a novela terminou com o maior dos maus exemplos: Um filho que matou um pai. 

- É, a senhora tá certa mesmo- Ouvi depois de dizer isto.

Percebi que as pessoas usam muito Deus para justificar seus preconceitos e pequenezas. Coitados! Não entendem nada de Deus.
Deus acolhe aqueles que amam, que têm bondade no coração, que são solidários e que desejam bem a todos, em discriminação.
Percebi também que a grande maioria dos comentários partiram de homens... Seria outro preconceito? 

Estamos arrodeados de preconceito.

Preconceito é foda.

1 comentários:

 
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