Meu aborto imaginário

29 de abril de 2015



Presa em mim. Me mantive assim por 180 segundos. 1 minuto de silêncio e meu estômago uivava músicas insuportáveis. Pela cabeça rodava um filme de 20 anos, uma tela ergueu-se nos quadradinhos da parede do banheiro, e como em cinema mudo, minha vida passava em lentes nostálgicas. Refletia em cores o que minha mente veria em preto e branco, um caminho traçado de lembranças mal resolvidas.
O início era marcado por esforços mentais de infância feliz com barbies lésbicas e amiguinhas normais. Passei pela adolescência devagar, querendo curtir os momentos onde a razão não mandava. Foi eterno, pensei. Sorri maliciosamente quando a tela mostrou minha mãe ensinando como ser adulta agindo imaturamente. Foi mentira, pensei de novo. Neguei algumas partes e acelerei crises existenciais, dando uma singela contribuição a uma vida eu-lírica. Confesso que rebobinei a fim de reviver aquele viés, aquele amor besta, aquele choro ridículo, aquela paixão malcriada.
Chegara em 2 minutos e a as cores da parede iam se desvairando sobre minhas lembranças, confundindo meu estado de ser em realidade de sentir. Restavam 60 segundos e meu coração já explodia na minha mão coberta de suor ansioso. Eu ia ser alguma coisa, só não sabia o quê.
3 minutos e abortei. Abortei a ideia de ser alguma coisa e continuei sendo menos eu. Sentada naquele chão gelado, olhei o não. E abortei, abortei meu imaginário.

Imagem: Reprodução

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