Minhas sinceras desculpas

16 de outubro de 2015

(via)

Há 5 anos atrás você me perguntava se tinha alguma aspirina pra passar sua dor de cabeça. O dia anterior estava estampado no cheiro de álcool em seu corpo. Eu, deitada e sonolenta, resolvi abrir apenas meio olho e me fingir de surda infinitamente. Ouvi, porém, as palavras que você e as outras pessoas do quarto conversavam, não sei até hoje se escutei estalos de beijos, risadas propositais ou despedidas rápidas. Ficou tudo bem confuso na minha mente morta de menina adormecida.

Eu navego pelas duas partes em que divido meu consciente e acho apenas sua voz naquele dia. Mentira. Recordo do afago do seu corpo abraçando o meu e anunciando sua partida. Você iria viajar, e disso eu tinha certeza. E levou alguém que amo junto.
Era um final de semana, como esse próximo ou aquele que já passou. Vocês iriam à praia, duas meninas pseudocults, uma confirmando nos olhos as músicas dos Novos Baianos, a outra iria sorrir com a boca a canção “um par” dos Los Hermanos. Uma conversa entre olhos e bocas na minha imaginação. Eu pressentia que iriam se casar nas areias, mas que não era amor de casal, era amor de amor. Peguei-me pensando nos pés das duas encostando no sal da água e fingindo que amanhã não seria segunda. Eu sonhei nas mentiras sinceras de Cazuza que vocês iriam dizer uma pra outra. Eu pensei nas duas levantando de manhã sem saber onde estão e na noite que teriam de chorar porque beberam vinho demais. Na comida fria, e no dinheiro murcho que felizmente vocês iriam gastar. E meus pensamentos fiéis foram construindo um mundo paralelo com as duas. Ali, na viagem, na praia, em qualquer lugar. Sem mim. Sem meu olho aberto pela manhã, sem meu beijo de despedida, e sem a aspirina pra sua dor de cabeça. Desculpa.

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