O menino que queria conhecer o sertão

24 de maio de 2016



Um céu cinzento desenhava a cidade de pedra do menino amarelo. Antenas apontadas para cima anunciavam gente com cara de tédio. Entre uma torre imensa e uma casa esmagada, era possível avistar a janela do menino de cor flava que se sentava no parapeito para espreitar o mar. Instalado no quadrado da sua torre de tijolos, ele olhava o horizonte que não saía da sua frente. Ao redor, era possível perceber olhares voltados ao punho e fumaças embaçando visões cegas. Na televisão dentro do quarto ecoavam vozes o chamando para as férias imperdíveis na praia.

Na sala, os pais reafirmavam a importância do vento bater no rosto daquele andar. Nas ruas, pessoas sorriam da água batendo no rosto. Na cabeça do menino, havia apenas um desejo: o sertão. Ele cheirava todo dia a maresia e não conseguia tirar do pensamento a fotografia que vira na internet do verde bonito da planta que embelezava aquela areia sem fim. Não conseguia parar de pensar nas palavras ligeiras que saíam das bocas dos homens e mulheres que moravam ali. 

Não tirava da cabeça a melodia estranhamente inefável que sacudia os pés dos moradores que habitavam aquele lugar. O menino sonhava com aquele azulão do mar no céu todo dia. Imaginava o calor do vento batendo nas suas mãos e implorando para cair no seu corpo. Almejava abraços conhecidos e pés descalços na rua. Sonhava com a brincadeira que poderia fazer no silêncio e como seria jogar na terra seca. O menino perguntava se a sua cor ainda seria amarela. Se sua janela ainda teria grades. Se o mundo ainda seria surdo. Se a beleza ainda seria cega. O menino queria que o mar virasse sertão.

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