Senta que lá vem problematização | Por Gabi Barbosa

5 de março de 2017



Quero pedir desculpas por não ter conseguido mandar a carta ontem, como previsto. Para compensar, já vou trazendo um assuntinho polêmico pra gente discutir bastante. Essa semana, a Helena, dona do Garotas Rosa Choque, compartilhou uma imagem de uma produção feita pelas lojas Renner no Stories do Instagram.

A Helena comentou sobre o fato de uma peça dessas não fazer sentido se não englobar todas as mulheres - afinal, nós conhecemos as lojas brasileiras: a maior numeração é o 42. Vamos combinar, eles ignoram solenemente a existência das outras mulheres que vestem de 44 para cima. Infelizmente, o mundo da moda de forma geral fecha os olhos para essa questão.
 

E, para engrossar o coro, adiciono mais uma percepção de todo esse movimento. É mais fácil vender uma camiseta escrito "Feminista" do que discutir sobre feminismo. Durante tanto tempo, ficamos com medo de nos enunciarmos feministas e as pessoas caírem matando em nossos ideais. Chamarem-nos de mal-comidas para pior. E agora, que o tema tem sido amplamente discutido (e isso é bom!), algumas lojas se apropriaram da palavra para vender.

O feminismo é um movimento tão complexo, tão multifacetado, tão cheio de pormenores que é quase impossível ter um posicionamento sobre todas as questões. Nós não sabemos de tudo, não somos donas da verdade. Estamos apenas aprendendo com o tempo, e cada vez mais percebemos que nada sabemos.

E no que, de fato, uma peça dessas ajuda na discussão de ideias?

Além do mais, para onde está indo todo o dinheiro que investimos no body? Para as costureiras é que não é. A palavra em questão foi utilizada pela "modinha", por um significado vazio de "meu corpo minhas regras", de frases prontas, e não a partir de uma reflexão sobre seu real sentido.

Não podemos ver o feminismo com os óculos da Taylor Swift. Não se trata de amar suas amigas, não se trata de vestir uma camiseta escrito "Feminist". Se trata de um movimento político e social urgentíssimo que traz à luz e procura soluções para questões como os estupros como arma de poder, o casamento de crianças e adolescentes, a mutilação genital feminina, a hipersexualização da mulher negra - e tantas outras que nem conseguiríamos terminar de redigir nessa carta.

Se estivéssemos consumindo de alguma marca que (no mínimo) paga suas colaboradoras justamente, que investe em cursos profissionalizantes, em bonificações, que pensa com cuidado na vida de quem costura cada um desses itens, que discute sobre o assunto seja internamente, seja na sua comunicação externa, aí sim poderíamos ver essa atitude com outros olhos. Porque aí ela teria um significado diferente da tendência.

Agora, como isso aconteceu numa rede de lojas tão grande como a Renner, podemos ter certeza que o movimento feminista foi esvaziado totalmente para caber na estampa de um body. E o que fica é a crença de que ele apareceu para servir um feminismo de butique, privilegiado e míope.

Então, é isso. O que vocês acham de toda essa discussão? Gostaria realmente de saber as suas opiniões. É só me responder esse e-mail para a gente bater um papo melhor! Prometo que a newsletter na próxima quinzena vai ser um pouquinho mais tranquila, sobre Carnaval - e sem problematizações, tá? :)

Beijo, Gabi.


Recebi esse correio da Gabi Barbosa, que é uma mulher massa que há uns tempos leio e vejo as coisas dela nessa querida internet. Acho que vale a pena compartilhar o que ela escreveu aqui pra vocês nesse mês tão importante e cheio de significado pra nós, mulheres.

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